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quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Literatura Iletrada - "O Filho de Odin" - 5ª parte

Eu sempre gostei de ler. Contudo, ao longo dos anos, o meu vício da leitura tem oscilado entre o hábito diário e o praticamente semestral. Sim, houve alturas em que eu praticamente negligenciei o meu amor pela leitura em prol de outras actividades não tão benéficas. É por isso que, para recuperar aquilo que me acompanhou durante inúmeras horas na minha adolescência, eu comecei a ler livros cujo tema aborda géneros literários que eu gosto. Por isso, comecei aos poucos a conhecer as obras de Agatha Christie e a acompanhar Hercule Poirot e a Miss Marple nos seus casos, viajei pelos Sete Reinos de Westeros e arredores n'"As Crónicas de Gelo e Fogo", de George R. R. Martin, vivi o desespero que o Dr. Victor Frankenstein passou ao longo da sua curta vida no romance de Mary Shelley, juntei-me a Jonathan Harker, Van Helsing, Mina Murray, John Seward, Arthur Holmwood e Quincey Morris na caçada por Drácula, conheci o heterogéneo mundo de Allaryia, criado por Filipe Faria, errei pelas místicas terras de Deltora com Lief, Barda e Jasmine n'"A Saga de Deltora", de Emily Rodda... e li este livro.
Nenhuma obra é perfeita, essa é a dura verdade. Por muita mulher que haja por aí a dizer que "Twilight" ou "50 Shades of Grey" são obras lindas e perfeitas, o que é certo é que são das histórias mais imperfeitas que existem, e a razão para isso é muito simples: são irrealistas. Na vida real, nenhuma mulher se identificaria com a Bella Swann ou a Anastacia Steel, simplesmente pelo facto que têm tanta personalidade como caixas de cartão, e ninguém é assim na realidade.
"Sim, porque haver dragões ou elfos é realista" ripostarão alguns de vós, sarcasticamente. Talvez no nosso mundo não, mas é por isso que a nossa imaginação tem a capacidade de criar inúmeras realidades onde tudo é possível. O que falamos aqui em realismo significa que cada história de ficção tem de obedecer a certas regras para que nos possamos deixar imergir na mesma sem questionar os seus elementos. Personalidades realistas envolvem as características psicológicas das personagens e leva-as a reagirem às diferentes situações consoante o que senso comum dita para cada uma delas. Por exemplo, se uma personagem é um velho carrancudo e solitário que não gosta de receber pessoas na sua casa, a narração não pode ditar que o mesmo velho fica contente quando alguém lhe toca à campainha. Cada um de nós tem uma identidade, algo que nos distingue uns dos outros. Quando uma personagem não mostra ter uma identidade, ela não passa de uma casca vazia, um modelo de puro vazio que não tem capacidade de sair da mesma cepa torta. E se um protagonista é assim, a história não vai passar de um ciclo vicioso que não vai levar a lado nenhum.
Agora, serão as personagens d'"O Filho de Odin" vazias? Como já foi dito em posts anteriores, Jonathan é claramente o author avatar de Zuzarte, e por isso é a única personagem com alguma personalidade desenvolvida, embora mesmo assim o autor muitas vezes se esteja a cagar completamente para o senso comum e adapta a personalidade de Jonathan para as diversas situações. Se a situação pedir por uma acção nobre, Jonathan é nobre. Mas se for preciso, no capítulo seguinte, essa nobreza é logo esquecida e podemos estar a observar um serial killer a ceifar centauros sem sequer se informar quais as suas intenções. Quanto às outras personagens: são apresentadas, vão falando uma e outra coisa e depois ficam esquecidas no meio de toda a adoração às qualidades de Jonathan.
Bem, já chega de dissertação. Há uma crítica a fazer e depois deste ainda tenho onze capítulos para abordar. Oh, eu sinto a minha sanidade mental a escorrer-me do meu enfraquecido ego.

A partir do 10º capítulo já estarei assim.
O quarto capítulo desta montanha-russa da mediocridade literária chama-se "Toledo e Boeürn Seterwind".

"A uns quantos quilómetros de Badajoz, os centauros ainda fugiam pelas planícies até que chegaram a um acampamento onde pernoitava Vhan, o Cavaleiro da Morte."

Então ao início Vhan é conhecido pelo Paladino da Chacina e agora é o Cavaleiro da Morte? O que é que vem a seguir, o Ceifeiro do Desespero?
Esta mudança de nomes para Vhan entusiasmou-me. Vamos ver quantas alcunhas consigo inventar para ele durante a crítica a este capítulo.

"À medida que entravam, a terra apodrecia, tornava-se negra, os animais morriam e serviam de jantar a Gurans."

O que são Gurans, perguntam vocês? Nem o próprio Zuzarte sabe, senão ele tinha colocado uma nota de rodapé a dizer que são criaturas criadas pela flatulência de Drácula. Ou pela sua própria flatulência.

"Não havia tendas, mas havia acólitos das trevas a invocar Zigurates."

Espera aí... Estás a dizer que os tais acólitos invocavam templos antigos do vale da Mesopotâmia?

Armar tendas é para meninos. Vamos mas é invocar uma coisa destas.
O Zuzarte nem se digna a explicar o que são Zigurates, nem a colocar uma nota de rodapé a informar o que são. Nem mesmo o Glossário existente no fim do livro explica a existência de tais elementos. Nem diz o que raio são Gurans. Mas mesmo assim, escusado será dizer que tais criaturas nunca mais irão voltar a aparecer na história.

"O grupo reunia-se à beira de um pequeno penhasco com vista para as planícies, e a observá-las, montado num Pesadelo (Equus Necron Maleficarum), estava Vhan."

Ok, primeiro é dito que Vhan estava a pernoitar, depois é informado que nem havia tendas (se calhar o Campeão da Perdição gosta de dormir ao relento, isso até consigo aceitar) e agora dizem-me que ele está montado num Pesadelo a observar o que se passa? Mas isto faz algum sentido? E alguém me explica como é que no capítulo anterior Vhan está na Roménia com Drácula e Khaltazad e neste ele já está a uns quilómetros de Badajoz? Vão dizer-me que o Pesadelo também comeu feijoada ao almoço e soltou uma propulsão com a velocidade de um F16? É que em nenhuma parte na descrição dos Pesadelos é dito que eles cavalgam a velocidades estonteantes. E sim, há uma descrição, o que prova uma coisa que já sabemos desde a crítica ao primeiro capítulo deste livro: Zuzarte só sabe plagiar.

Ora nem mais. Estes Pesadelos não são nada mais nada menos que os mesmos tipos de criaturas que povoam o universo de Dungeons & Dragons. Isso só mostra que a capacidade imaginativa de Zuzarte é tão fraquinha que a única forma que encontra para descrever seres é indo buscar aos seus hobbies e vícios. Não fazemos ideia do que são Gurans e Zigurates, mas Pesadelos já é mais simples de imaginar, principalmente porque não são originais neste livro.
Bem, os centauros lá se aproximam de Vhan e informam que grande parte da manada foi aniquilada por Jonathan e Kenchi. Esta informação faz com que o Arauto do Morticínio fique enraivecido com a incompetência dos centauros. Mesmo assim, um deles exige o pagamento devido pelo trabalho, o que não faz sentido, uma vez que a missão deles era de matar Jonathan. Então, o Núncio da Hecatombe ordena aos esqueletos arqueiros (invocados por necromantes porque nenhum deles levou um baralho de Uno para se entreterem) para chacinarem por completo os centauros.
Então, os centauros são varados por flechas e os que escaparam são cortados aos pedaços que voam pelo ar e são devorados pelos tais Gurans. Enquanto isso, o Emissário do Massacre ri e bate palmas como um bebé entretido com um show de palhaços.

Assim tipo isto.
Depois de mais uma carnificina de seres fantásticos, o Ginetário da Mortandade elogia o seu exército de Olivias Palitos e pensa em experimentar outra técnica de assassinato.
E a acção salta automaticamente para Jonathan e Cia, já fora da cidade.

"Jonathan tocou uma nota na sua trompa e ajudou Iori a subir (...)"

Ok, nós já sabemos que soprar a trompa de Odin faz aparecer Arthos, mas não ficaria mais bem escrito se houvesse uma passagem que descrevesse a chegada do grifo? Mas que posso dizer? O Zuzarte não presta para escrever.
E é então que chegou a hora de apresentar o novo animal sagrado. Kenchi decide invocar a sua montada que irá acompanhar os nossos heróis na viagem.

" - (Kenchi) O vento sopra de leste. Aparece Daigoro! - depois pegou numa espécie de flauta e tocou uma nota."

Pensavam que me tinha esquecido?
Eis que partículas verdes começam a se juntar até formar "um tigre com dentes de sabre, pele verde às riscas e olhos azuis. O pêlo do animal formava uma espécie de chama esverdeada."

E ele soma e segue.
Antes de continuar, há-que referenciar mais uma descarga de plágio que se encontra aqui. No post anterior apenas disse que Kenchi é uma fotocópia de Kenshi, uma personagem de Mortal Kombat. O que não apontei foi o uso do nome Yojimbo e, introduzido neste capítulo, Daigoro. Depois de uma pequena pesquisa, poderíamos considerar Yojimbo como sendo uma referência ao filme japonês de 1961 com o mesmo nome e realizado por Akira Kurosawa.

Isso até não seria assim tão mau se Zuzarte não mostrasse o quão energúmeno é ao introduzir também o nome Daigoro e ainda por cima o associar a um animal mágico. Isto porque Yojimbo é também uma summon de Final Fantasy, aparecendo pela primeira vez na décima entrada da famosa série de RPG, sendo Daigoro o seu fiel cão.

Se eu tivesse uma espada daquelas chamava-lhe a Ceifeira de Plagiadores.
Então o tigre lá surge, assusta Jonathan quando mostra que sabe falar e até sabe o seu nome e começa uma rivalidade com Arthos.

"- (Arthos) Olha lá, meu velho, tens ar de ser muito rápido.
- (Daigoro) Afirmativo, meu jovem; se eu quiser posso correr a 800 km por segundo ou até à velocidade do som e da luz.
- Ai é?! Então fazemos assim, meu velho senhor: realizamos uma corrida daqui até Toledo; e quem chegar primeiro, ganha."

Ora bem, a distância em linha recta de Badajoz a Toledo são cerca de 275 km. Fazer essa distância a 800 km/s é mais rápido que ir da retrete ao bidé. E sabendo essas informações, o Zuzarte ainda tem o descaramento de afirmar que 800 km/s é a velocidade básica de corrida de Daigoro. É que Arthos e Daigoro andam a fazer a corrida entre as duas cidades, ambos a altas velocidades, e o grifo ainda se consegue colocar ao lado do tigre.
Ora, o Zuzarte pode ser esquecido, mas eu não sou. Disse Arthos que a sua velocidade é a mesma de um F16. A velocidade máxima atingida por um jacto desses é de 2 414 km/h, muito mais lento do que a velocidade máxima de Daigoro. Para além de colocar ambos os animais lado a lado, ainda fazem uma recta final quando se encontram a apenas cinco quilómetros de Toledo. Este Zuzarte é um exagerado nas características que dá às suas personagens e depois ainda nos quer fazer acreditar que algo como esta corrida era possível acontecer. Eu perco a minha paciência com este imberbe.
Então eles lá chegam à cidade.

"Os portões da cidade eram feitos de tijolos vermelho-acastanhados e reforçados de metal negro. As grades eram de madeira de carvalho, fazendo com que o portão fosse muito difícil de destruir."

Mesmo assim, acho que era melhor certificamo-nos de que isso
é realmente verdade.
Chegam todos aos portões da cidade e pedem para os guardas lhes abrirem passagem para a cidade. É então que temos a bela da capacidade do Zuzarte para nos maravilhar com uma descrição detalhada de Toledo em todo o seu esplendor.

"Jonathan, Iori e Kenchi entraram em Toledo, a cidade das espadas e armaduras, toda ela construída de pedras e tijolos; ou seja, os passeios eram feitos de pedra e as casas de tijolo."


Chegam finalmente a casa de Boeürn Seterwind, o paladino de Toledo e tio de Jonathan, e tocam à campainha. Lá vem o mordomo que, ao ouvir o nome de Jonathan, tem logo a recordação do momento em que o rapaz tem um duelo de floretes com Uther aos 10 anos e consegue derrotar o pai.
Sim, claro, vou mesmo acreditar que um puto de apenas 10 anos conseguiu desarmar o paladino do Rei de Portugal. Deves pensar que os teus leitores são tão estúpidos como tu, Zuzarte. Acho que devias parar com a enxurrada de privilégios para o teu protagonistazinho de treta porque há coisas que não fazem sentido absolutamente nenhum.
O mordomo leva os visitantes à presença de Boeürn, e é então que temos direito a uma descrição desta nova personagem.

"Boeürn, na sua aparência, é muito semelhante a Uther, apenas o cabelo deste é preto e a sua armadura é amarela."

Oh... Então Adriana Seterwind casou com um homem muito semelhante ao irmão? Hmm...

Estás a ver, maninha? Não somos os únicos a fazer marotices.
Boeürn então repara em Jonathan, que nesse momento está distraído "a tirar macacos do nariz". Claramente a atitude mais correcta do filho de Odin. Então, para celebrar a chegada do sobrinho, o paladino de Toledo decide fazer um banquete. O mordomo bate palmas e todos os restantes criados, entre eles hobbits, lá começam a preparar a grande festa.
Logo a seguir chega "uma rapariga de cabelo ruivo, orelhas de elfo e com uma cara quase tão bonita como a de Iori (tanta preguiça, Zuzarte, tanta preguiça...)". Quando vê Jonathan, salta-lhe literalmente para cima e aperta-lhe o pescoço.

"- Jonathan, voltaste!!! - gritava ela, contente.
- Gasp... não... conseguir... respirar... morrer... COF... - e Jonathan caiu no chão, semiasfixiado.
Iori, ao ver o que aconteceu, gritou tão alto que até o vidro de uma janela rachou."


Este Zuzarte é mesmo uma peça. Agora está a tentar reproduzir um momento de pura comédia através de elementos de completa palhaçada. Pois é isso mesmo que nós temos durante os parágrafos seguintes, com Iori a ameaçar degolar a nova rapariga, a ruiva a mostrar as suas capacidades de reanimação e a mandar um balde de água fria à cara de Jonathan e Iori a perder as estribeiras quando o rapaz apresentou a rapariga nova como sendo Mace, a sua namorada.
Na verdade, Mace é prima de Jonathan e filha de Boeürn. O facto de ela ter orelhas de elfo poderia remeter para a mãe ser uma elfo que viveria lá em casa, mas como sabemos que as mulheres nas histórias de Zuzarte são seres inúteis que só servem para fazer de depósitos de esperma para os homens, obviamente que nunca iremos saber quem é a mãe de Mace. Com Adriana Seterwind apenas sabemos o nome e que é mãe de Jonathan. Com a mãe de Mace nem sequer temos conhecimento da sua existência.
Finda toda a confusão, que só serviu para encher linhas, Jonathan lá se vai preparar para o tal banquete, entrando no quarto que lhe fora designado. O capítulo termina com a informação que o seu fato de cerimónia encontra-se em cima da cama.
Mais uma vez, Zuzarte apresenta-nos uma cavalgada de inconsistências, narração fraca, descrições inexistentes e, como não podia deixar de ser, plágio a torto e a direito. Por um lado, até me sinto aliviado por ter terminado este capítulo. Por outro, ainda tenho mais onze para analisar e achincalhar à força toda. Ao menos divirto-me a expô-lo como a fraude literária que ele é.

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